11 de mar de 2012

O Corpo como capital.


A “NOVA” MULHER BRASILEIRA:
EM BUSCA DE PRAZER, LIBERDADE E FELICIDADE
Mirian Goldenberg (extraído de material divulgado pela P&G).



      Desde 1988 venho realizando inúmeras pesquisas qualitativas e quantitativas sobre homens e mulheres na cidade do Rio de Janeiro,comparando os resultados dessas pesquisas com dados que coletei em outras culturas, particularmente na Alemanha, Espanha, Suécia e Argentina.
           Rio de Janeiro é um lugar especial para se pensar em traços particulares da cultura brasileira.Um lugar que simboliza um determinado “espírito brasileiro”, associado à praia, ao sol, ao calor, à informalidade, ao corpo, à sexualidade, à saúde e a uma natureza privilegiada.
             O verão nas praias cariocas, e também em outras praias, é o momento mais esperado para o exercício desse espírito brasileiro, um povo que cultua o prazer, a liberdade e a felicidade.
       Leila Diniz, objeto de estudo de minha tese de doutorado em antropologia, foi e é ainda um ícone desse espírito solar. Com seu corpo grávido de biquíni na praia de Ipanema, em 1971, Leila é, até hoje, a melhor representante da revolução feminina ocorrida nas décadas de 1960 e
1970, quando as brasileiras libertaram seu corpo dos papéis tradicionais de mãe e esposa e inventaram novas formas de ser mulher.
      Outro ícone dessa revolução comportamentalfoi Fernando Gabeira, que, recém-chegado do exílio no verão de 1980, exibiu o corpo vestindo uma tanga lilás de crochê na praia de Ipanema. Os corpos de Leila e de Gabeira, no verão das praias cariocas, mostraram que ser homem e ser
mulher no Brasil nunca mais seria o mesmo.
         E o que estes corpos simbolizaram, em plena
ditadura militar? Liberdade, em primeiro lugar, e também felicidade, prazer e a busca de criar novas alternativas de comportamento para os brasileiros e brasileiras.
          Mais de três décadas depois, novas questões surgiram, mas prazer, liberdade e felicidade continuam sendo desejos recorrentes, como mostram os dados das minhas pesquisas. O que, resumidamente, tenho encontrado entre os brasileiros e brasileiras?

1. No Brasil, o corpo é um capital. Criei essa ideia ao verificar a importância que as mulheres e, também, os homens, dão ao seu corpo, no mercado de trabalho, no mercado de casamento e no mercado sexual. Elas e eles desejam ter um corpo jovem, magro, trabalhado, bem cuidado.
    Nesse sentido, pode-se dizer que no Brasil, diferentemente de outras culturas, é o corpo que deve ser exibido, tatuado, colorido, costurado.Como aprendemos na antropologia, a cultura brasileira veste o nosso corpo. Pode-se dizer que, no Brasil, o corpo é muito mais importante
do que a roupa.
            No Brasil, onde as praias e a temperatura elevada
durante quase todo o ano favorecem o desnudamento,
a centralidade que a aparência física assume na vida cotidiana é muito mais evidente. A crença de que o corpo é um capital produz uma cultura de enorme investimento na forma física e, também, de profunda insatisfação com a própria aparência. Insatisfação que atinge inúmeros brasileiros.
           No verão, esse corpo deve ser ainda mais trabalhado para poder ser exibido, nas praias ou em outros locais, em biquínis, minissaias, shorts e camisetas que modelam o corpo.
         Esse “corpo capital” pode explicar o fato do mercado de cosméticos no Brasil ser o terceiro do mundo, só perdendo para os Estados Unidos e Japão. O crescimento da indústria de beleza no Brasil é cada vez maior, especialmente com a entrada das classes C e D com força total no mercado consumidor. Os produtos para cabelos estão em primeiro lugar entre os itens que lideram o mercado de beleza brasileiro. A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal,Perfumaria e Cosméticos mostrou que, em 2010, o Brasil se tornou o campeão mundial em faturamento com a venda de tinturas de cabelo.
2. Ter uma família é um valor importantíssimo no Brasil. Em outras culturas, especialmente na Europa, grande parte dos homens e mulheres não quer casar ou ter filhos. Aqui, casar e ter filhos é um desejo muito presente, em todas as
gerações e classes sociais. Portanto, homens e mulheres investem muito (tempo, dinheiro, projetos etc) no casamento e, especialmente, nos filhos. As mulheres destacam ainda mais do que os homens a importância da família para a sua realização e felicidade.
            Assim, temos, além do corpo, “o capital marital”:ter um corpo jovem, magro e trabalhado é visto como uma riqueza; mas ter um marido e filhos pode ser uma riqueza ainda maior, como encontrei entre as brasileiras pesquisadas.
3. No entanto, pesquisando homens e mulheres mais velhos, descobri um outro valor,muito presente,especialmente entre as mulheres de mais de 50 anos. Mesmo valorizando o corpo e o marido, elas passam a enfatizar a importância da liberdade que adquiriram com a maturidade. Dizem, categoricamente, “é a primeira vez na vida que posso ser eu mesma”. As mulheres de mais de 60 anos são ainda mais enfáticas:“agora, é o momento mais feliz da minha vida”.
          Dizem que gostam de ter o tempo livre para ir à
praia, de biquíni, sem vergonha do corpo fora dos padrões, tomar um chopinho com as amigas, dançar, viajar, fazer cursos, ir ao cinema e ao teatro, namorar etc. Afirmam que se preocupam muito mais com a saúde, com o bem-estar
e especialmente com a qualidade de vida, do que com a aparência ou com o corpo dentro dos padrões. Cuidam-se muito, mas procurando ter uma vida saudável e prazerosa. Elas querem dar mais risadas, e se arrependem de, quando mais jovens, terem sido tão preocupadas com o corpo, com o marido e com os filhos, e não terem tido tempo para cultivar os próprios prazeres.
           Agora, mais velhas, dizem: “quero o meu tempo
para o meu próprio prazer, não me preocupo mais com a opinião dos outros... pena que descobri a liberdade de ser eu mesma tão tarde”.
       Quais são, então, os desejos dessas “novas”
mulheres? Rir, conversar, sair, passear, dançar,viajar,estudar, cuidar da saúde, ter bem-estar e
qualidade de vida, enfim, “ser eu mesma”, e não responder, desesperadamente, às expectativas dos outros.
        No Brasil, muitas mulheres jovens, extremamente
preocupadas em ter o corpo em forma, em conquistar um marido e cuidar dos filhos,adiam, inconscientemente, um dos maiores prazeres femininos; prazer que só será descoberto quando estiverem mais maduras: a liberdade
para “ser eu mesma”. Só mais maduras, elas irão se descobrir como o centro de seus cuidados e buscar uma vida mais livre, prazerosa e feliz. Só então elas irão exibir seus corpos sem medo do olhar do outro, sem vergonha de suas imperfeições e sem procurar a aprovação masculina ou feminina.
          A “nova” mulher está descobrindo que a felicidade não está no corpo perfeito, na família perfeita, no trabalho perfeito, na vida perfeita, mas na possibilidade de “ser eu mesma”, exercendo seus próprios desejos, explorando caminhos individuais e tendo a coragem de ser diferente. Ela está descobrindo que as amizades são riquezas imensas, e o quanto é importante investir em “ser eu mesma” em todos os domínios da vida. Descobrindo também que não deve jamais se comparar a outras mulheres, porque cada uma é única e especial.
Ela está descobrindo que a felicidade pode ser conquistada no cotidiano, em coisas simples,como dar uma risada gostosa com os amigos, ter uma alimentação saudável, caminhar na praia e sentir o calor do sol em uma tarde de verão.
             A “nova” mulher está descobrindo que deve
ser a sua melhor amiga, tratar-se com o mesmo carinho que dedica aos filhos, ao marido, aos familiares; cuidar do corpo, do coração e da mente com delicadeza e generosidade. Que deve parar de se sacrificar e de se esforçar tanto para agradar aos outros, para provar o próprio valor e receber o reconhecimento que tanto
almeja. Ela está descobrindo que deve agradar a si mesma, aceitar as imperfeições e reconhecer o próprio valor. Assim, em todas as estações, o prazer, a liberdade e a felicidade estarão presentes em sua vida.
             Leila Diniz, se não tivesse morrido aos 27
anos em um acidente aéreo, teria 66 anos.Fernando Gabeira tem 70 anos. Foram as Leilas e os Gabeiras da geração dos anos 1960 e 1970 que inventaram novos modelos de ser homem e de ser mulher no Brasil. E são as novas Leilas e os novos Gabeiras que estão inventando alternativas mais prazerosas, livres e felizes de ser homem e de ser mulher nos dias de hoje.



MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga e professora do Departamento de Antropologia Cultural e
do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e
Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutora em Antropologia Social
pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. É colunista da Folha de São Paulo. É autora de Toda mulher é meio
Leila Diniz, A arte de pesquisar, A Outra, Os novos desejos, Nu e vestido, De perto ninguém é
normal, Infiel, O corpo como capital, Coroas, Noites de insônia, Intimidade, Por que homens e
mulheres traem?, entre outros livros.


www.miriangoldenberg.com.br





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